Pequena Ostra
Category: Apparel
A coleção outono/inverno 2026 "Pequena Ostra" investiga o corpo como matéria que acumula, registra e transforma tudo aquilo que o atravessa. A ostra permanece como origem desse pensamento: um corpo orgânico que produz sua própria matéria, que se constrói por acúmulo, secreção e sobreposição. Um organismo que não separa interior e exterior, mas transforma tudo em superfície ao longo do tempo. É a partir dessa lógica que o couro se estabelece como núcleo da coleção. Não como representação da pele, mas como sua continuidade deslocada — uma epiderme que já foi viva e que, mesmo separada do corpo, permanece carregando marcas, tensões e memórias inscritas em sua matéria. Vincos, poros e cicatrizes não são apagados, mas assumidos como registros de uma existência anterior que persiste. Se a ostra constrói sua concha como proteção do interior, o couro opera no sentido oposto: ele é o que resta quando o interior já não está mais presente. Ainda assim, continua ativo — resiste, resseca, racha, cede. Uma matéria que não se estabiliza, mas que segue em transformação. A coleção se constrói nesse território de tensão entre o corpo que produz e a matéria que permanece. Entre o vivo e aquilo que carrega o vestígio do que já foi. A materialidade reforça esse encontro. Fibras naturais, lãs e estruturas têxteis se apresentam como extensões de um corpo em formação — superfícies porosas, que acumulam, filtram e retêm. O couro introduz densidade e contenção, tensionando essas matérias mais instáveis e maleáveis. As peças operam como camadas de uma epiderme expandida. Volumes que se sobrepõem como acúmulos, crostas e sedimentações, como se o corpo estivesse continuamente produzindo e reorganizando sua própria superfície. As costuras deixam de ser apenas construção e passam a atuar como suturas: pontos de tensão que unem, forçam e evidenciam a tentativa de recompor um corpo fragmentado. Não há intenção de esconder — cada marca é mantida como parte da estrutura. A cartela de cores se ainda em brancos e beges sujos, que evocam a epiderme, e em marrons profundos que reforçam o caráter orgânico e bruto da matéria. O preto surge como marca, limite e cicatriz — uma interrupção que delimita e evidencia a superfície. "Pequena Ostra" afirma um corpo que não desaparece, mesmo quando reduzido à matéria. Um corpo que continua existindo em suas marcas, em suas camadas e naquilo que permanece após sua ausência.
